Lidando com a desinformação em época de eleições – Parte 1

Este mês me inscrevi num curso muito interessante (que recomendo a quem gostar do assunto correr e fazer, pois é somente esse mês, de graça, online) chamado “Como Desbancar Fake News e nunca mais chamá-las por esse nome“.

O curso é voltado para jornalistas e promovido pelo Knight Center for Journalism at the University of Texas at Austin, e “busca apresentar conceitos e práticas para entender e lidar com o fenômeno da desordem da informação. Jornalistas são hoje bombardeados por uma enorme quantidade de conteúdos digitais produzidos por usuários, que precisam ser verificados antes de se tornarem ou não notícias”. Nada impede que pessoas de outras áreas se interessem e façam o curso.

Fazer esse curso me fez pensar em como hoje em dia consumimos a informação de forma desenfreada. Eu sou parte da geração que conheceu o mundo sem internet e tive o privilégio de fazer parte da minoria que ficou online ainda no início da década de 1990 no Brasil. No tempo em que existiam mecanismos de busca como o Cadê? e o Altavista, em que as buscas retornavam poucos links e eu desenvolvia sites usando HTML puro cheio de tabelas e gifs brilhantes, não havia ainda a noção de como a internet iria crescer e prosperar, bem como quais seriam seus efeitos.

Hoje temos acesso a uma gama muito maior de informações, bibliotecas pelo mundo, museus, livros, revistas, tudo ao alcance de um click de forma “gratuita” (desde que você tenha o equipamento e a internet, o que não é possível para todas as pessoas, pois são tecnologia e serviço pagos). Pessoas de coração e mentes abertos para escrever e divulgar os mais variados assuntos e temas de interesse.

Sim, tanto potêncial para termos uma internet reduzida a redes sociais. Que fenômeno peculiar esse que faz com que hoje em dia, para muitas pessoas, as redes sociais sejam consideradas fontes confiáveis de informação.

Apostas

Faço a aposta de que, em parte, pode ter relação com o fato de que o abismo entre quem tem e quem não tem acesso à rede diminuiu parcialmente graças aos celulares com internet, mas ainda é muito baixo, apenas 57,8% da população possui conexão com a internet. Assim, temos um aumento no acesso, mas ele é feito por celulares.

landscape street rooftop iphone
Foto por Henry Marsh em Pexels.com

As operadoras de internet móvel não tem a menor intenção de diminuir seu lucro, portanto, pagamos caro pelo acesso e pelo consumo de dados e, se compararmos com outros países pelo mundo, pagamos caro por baixa qualidade e baixa velocidade.  Muitas operadoras incluem entre seus serviços “gratuitos” o acesso ao WhatsApp e ao Facebook “sem descontar da franquia” e penso que isso contribua sobremaneira para que sejam esses os principais usos para muitas pessoas que acessam a rede.

Outra aposta é que ampliamos o acesso, mas não ensinamos as pessoas a usar a internet de forma responsável e ou consciente, a perceber os problemas que existem, bem como o universo de possibilidades.

Juntemos a isso o fato de que, usualmente, são poucos os momentos na nossa vivência escolar em que aprendemos a pesquisar e,  esses momentos podem se restringir a algumas disciplinas. Isso tem como um dos possíveis efeitos os adultos que chegam na graduação copiando e colando informações de qualquer lugar, que não tem a menor ideia de onde buscar as informações, fontes confiáveis, ferramentas que facilitam a pesquisa etc.

Aqueles que não estão seguindo a vida acadêmica (e podem pensar que não precisam saber pesquisar) esquecem que saber pesquisar nos ajuda a discernir o fato do boato.

business newspaper page near black click pen and coffee
Foto por rawpixel.com em Pexels.com

As pessoas tendem a disseminar informações independente da fonte e do conteúdo, quase como se o simples fato de estar escrito na internet fosse garantidor de confiança. Em tempos de eleições, a coisa fica ainda mais complexa, pois junto com as pessoas desinformadas existem aquelas que promovem a desordem da informação para causar os mais variados efeitos. Dissemina-se informação incorreta (muitas vezes em forma de piada, mas que uma pessoa desatenta pode acreditar), desinformação (conteúdo fabricado ou impostor, falso contexto etc) ou, ainda, a mal-informação (vazamentos, assédio, discurso de ódio). Desta forma, da piada ao conteúdo que é capaz de matar, somos todos responsáveis por aquilo que compartilhamos.

Ferramentas úteis

Para conseguir desmarcarar aquilo que é informação falsa contamos com algumas ferramentas que podem ser facilmente utilizadas direto no navegador de internet. No caso vou apresentar três extensões do navegador Google Chrome que podem scontribuir para descobrir se aquilo que estamos lendo é um conteúdo factível ou se é mais poluição da informação.

Extensão Wayback Machine

Esta extensão permite que tenhamos acesso a cópias arquivadas das páginas (aquelas que desapareceram, erro 404, por exemplo), bem como o acesso a quem registrou o domínio (whois), primeira versão da página, última versão da página, entre outras funcionalidades.

Para que serve então? Quando você está visitando alguma página e vê uma notícia estranha ou suspeita, você pode tentar traçar um histórico da página, assim como as versões dessa mesma publicação (caso exista). Há páginas com conteúdo enganoso que são criadas para conseguir tráfego e cliques, usando como tema alguma assunto que esteja mexendo com as informações, então com essa ferramenta você pode descobrir se é esse o caso.

Esta extensão é muito interessante para perceber como e quando determinada reportagem viralizou, ou seja, ao utilizar  a CrowdTangle você consegue saber quem compartilhou o link e onde ele foi compartilhado (que redes sociais), podendo acessar cada uma das postagens em questão. É muito útil quando você quer saber se determinada reportagem é falsa, ou mesmo se você está sendo levada a acreditar por conta do viés de confirmação.
Esta extensão serve para fazer a busca reversa de imagem, ou seja, você insere a imagem no mecanismo de busca desta extensão e ele te retorna se essa imagem é única ou foi utilizada outras vezes. Ajuda muito para perceber se a foto a ser compartilhada ou usada como “prova” de algo é uma montagem ou se é utilizada fora de contexto.

Concluindo…

Minha ideia é escrever mais sobre o assunto, porque o curso tem me estimulado a pensar e ter ideias sobre como lidar com a desinformação em tempos como os atuais, onde pessoas próximas divulgam candidatos com discurso de ódio; em que vejo o ódio e medo “escorrer” pela tela do computador; onde por vezes não tenho a escolha de me negar a receber aquela mensagem com uma imagem toscamente preparada e disseminada para instigar ódio em grupos de colegas.
Para além disso, tem me estimulado a pensar sobre como se dá o consumo a informação e como muitas vezes esse consumo ocorre de forma desenfreada, numa reação a alguma emoção despertada, ou a um processo ansioso. Aliás, voltar a escrever nessa página está dentro desse processo de reflexão, afinal, melhor que escrever no Facebook da lacração e desaparecer é escrever um conteúdo com maior qualidade e que despertará em mim menos reações ansiosas.
O alcance hoje em dia tende a ser menor, pois para algo ser acessado por mais pessoas, precisa viralizar. No entanto, se eu conseguir que as pessoas que acessam essa página leiam esses conteúdos e, quem sabe, isso gere reflexões e ações diferentes, será maravilhoso.
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A imagem destacada é uma foto de rawpixel disponível gratuitamente no site Unsplash

 

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